
Domingo, Julho 08, 2007

Domingo, Julho 01, 2007
Difícil me lembrar da sua voz e embora eu queira rever filmes em minha memória, os momentos em que estivemos juntos só me vêm como fotografias, onde não há movimento e não somos capazes de ouvir os sons. Não identifico o dia da semana. Dificilmente tenho noção do ano. Só reconheço as cores e uma forte impressão das sensações daquele instante, como a ansiedade que eu sentia ao esperar o refresco de maracujá feito por você...
Éramos uma dupla imbatível! Ninguém podia com o velho fusquinha azul, quando na volta da escola, a gente compartilhava a direção. Depois, o velho balanço, amarrado num dos caibros que sustentavam as telhas, aguardava-me no terraço - que já não existe mais. Ao lado, a mini-cadeira de balanço azul era perfeita para o descanso, e eu não tinha dúvidas de que havia sido o meu melhor presente.
Queijo com goiabada. Leite com Nescau. Farelo de bolo de vovó com café. Você era o melhor. E eu era a melhor, perto de você. Não tinha criatura no mundo que nos desgrudasse.
"A véia debaixo da cama", "o jacaré de paletó", "comadre onça e compadre macaco". O velhinho do morro que queria me levar embora, quando você, com firmeza, dizia-lhe: "essa eu não vendo, não troco e nem dou retrato". Histórias para rir, para dormir e para nunca mais esquecer. Fábulas que plantaram sementinhas em mim desde criancinha, e que eu tive a emoção de rever na série “Hoje é dia de Maria” e no filme “Peixe Grande”, de Tim Burton.
A sabedoria de gente de mãos calejadas, sem agrados pecuniários para oferecer, mas um amor em potencial incrível e uma simplicidade que só o olhar de uma criança é capaz de reconhecer de imetiado. E o fato de só ter podido conviver contigo durante os meus primeiros cinco anos de vida, faz com que só exista esse olhar mais sutil, espontâneo e puro para a nossa partilha. Talvez esse sim seja o maior presente, e não a cadeirinha azul de balanço supracitada. O presente de uma convivência que não teve a oportunidade de estragar com o azedume do cotidiano dos “adultos”, que compram tudo prontinho das lojas e aceitam, sem indagações, o prazer sintético, efêmero e vazio... Escravos do tempo inventado pela própria sociedade, do dinheiro (sempre mais) e das opiniões de massa, alienadas e hipócritas. Não, a nossa história teve a honra de sair incólume de interferências desse mal deveras assolador...
Obs: Texto em homenagem ao meu avô parterno, carinhosamente chamado pelos netos de "Dodô". Esse ano, sua ausência completa quinze anos. Acredito que dificilmente terei uma relação tão cúmplice como a nossa, coisa que me espanta até hoje. É a saudade mais doce e leve também. E a primeira tristeza consciente que lembro ter tido, que foi quando ele voltou do Maranhão, após fazer uma cirúrgia pra retirar um tumor no cérebro, e me olhou indiferente, sem assimilar minha figura. Foi uma pontada forte no peito. Ora, eu, com quatro anos de idade, não sabia o que pensar da situação em ter uma das minhas principais referências, um dos meus maiores amores, sem corresponder a minha alegria em vê-lo chegar... Depois perdoei, sem saber que o que sentia era perdoar, e encarei os seus últimos dias da forma mais serena que podia existir...
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