
Terça-feira, Maio 29, 2007
Fico tão desconsertada que só consigo rir. Por acaso, uma seqüência incrível de fatos começa a me surpreender. E eu gosto da sensação que me invade. Parece que muitas peças vão se encaixando num cenário onde jamais me imaginei. E antes que as pretensões pareçam claras, a vida parece adiantar-se e me olhar irônica, meio de canto, como se dissesse: o café da manhã já está sendo posto na mesa, daí você decide o que realmente pode, quer e desejar saborear. Verde, fruta silvestre. Manoel, Frederico e Chiquinha. Bilhetes escondidos por entre os cigarros de menta. Tudo que vem, quando eu já me sinto exausta de só ir.
Domingo, Maio 27, 2007
Da palavra
Quando a linguagem se funde com os nós do corpo, sintetiza as nuances do mundo externo com o interno, vai garimpando e lapidando o que há de ter valor, transportando-me tantas vezes para outras dimensões capazes de me fazer arrepiar a pele. E só quem realmente se encoraja a entrar nesse mundo obscuro das palavras é que se sensibiliza para o que está expresso nas entrelinhas, que contém milhares de atos falhos, tropeços e descobertas capazes de dizer mais ao próprio escritor, após pesadas elaborações. Escrevendo, eu capturo mais de mim mesma. Lendo, eu capturo o que me é possível do outro e o que há de mim naquele outro. Um egocentrismo necessário ao passo que só me conhecendo mais e percebendo para onde meu olhar me leva é que posso formar com segurança minhas opiniões e entender minuciosamente minhas atitudes, num modo de dar mais sentido a essa existência duvidosa e dolorosa.
* * *
"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra - a entrelinha - morde a isca, alguma coisa se escreveu."
"Escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio."
"Quero escrever-te como quem aprende. Fotografo cada instante. Aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra."
ps: Todos os trechos em destaque são de Clarice Lispector, retirados do livro "Água Viva".
Descalça
Estou descalça e tenho sono.
Os pássaros daqui não me acordam.
Sou acordada por aves de outras castas.
Outras esferas.
Marize Castro
Terça-feira, Maio 22, 2007
Momento de inspiração após assistir Amélie Poulain
Gosto de andar descalça em chão geladinho. Dos meus cabelos molhados, após lavá-los no banho. Do azedinho do morango misturado ao doce do creme (o mesmo vale para as trufas de cupuaçu). De marcar com grafite os trechos que me tocam nos meus livros (principalmente nos de Clarice). De vestir uma saia de tecido leve e macio. Do café-com-leite na companhia do meu pai, de manhã (sem ele, o café já não fica com o mesmo gosto). De cachorro-quente de rua, com direito a salsicha, carne, frango, milho, ervilha e batata palha. Do barulho de água caindo. Do caldo do feijão marrom preparado aqui em casa por Ana. Gosto e ver uma mata bem verdinha, após a chuva. Das cores de fotografias antigas. De circular sozinha pelas festas e shows. De café puro e pão com manteiga no meio da tarde em dia de trabalho (tem que ser no trabalho). De passar hidratante de morango no corpo antes de dormir (o prazer é mais pelo cheiro de morango do que pela pele macia). Adoro Serenata de Amor quando está bem crocante e devorar ansiosa uma caixa de Bis branco. O calor do corpo do outro, num abraço forte. O sol das sete horas da manhã. Tomar sorvete de pinha ou manga na Sorveteria Tropical e observar o movimento dos carros e das pessoas, no meio de uma tarde corrida e quente...
E os seus pequenos prazeres, quais são?
Sexta-feira, Maio 18, 2007
De repente, estava você em minha vida, testando e provocando meus limites. Foi atento ao ouvir sobre as minhas histórias e me questionou inteira com as suas verdades de chumbo pesado. Notei desde o princípio a tua presunção, mas me curvei conscientemente, como se fosse uma "delícia detestável", um paradoxo latente em mim - e atraente. Fiquei impotente, exposta ao teu bel prazer, numa entrega parcial e clara. Sem me apaixonar, conheci um "envolvimento desvinculado", degustado como um vinho extra-seco travando na garganta e de ótima safra. Como uma liberdade que prende misturada a uma armadura de aço que me espanta.
Terça-feira, Maio 15, 2007
Ela e ele no mesmo sofá. Um em cada extremidade, como se reconhecessem o lugar que a enorme barreira de distância deveria ocupar bem no meio deles. Ela pouco dirige a palavra a ele e a recíproca é verdadeira. Nem parece que antes se apertavam contra o corpo do outro, como se quisessem ocupar o mesmo pequeno espaço na cama, como se quisessem misturar o calor e ter a certeza que as essências estavam entrelaçadas até durante o sono. Notaram-se como estranhos enquanto ela pensava nos lençóis já divididos, na água no mesmo banho, na comida do mesmo prato. Sim, mas agora se tornaram desconhecidos, é fato. Tão distantes... Ela não suportou, mudou de sofá e tratou de procurar outras coisas pra se entreter, escondendo as mãos suadas. Incrivelmente portando-se com uma naturalidade mais cínica impossível. E provavelmente muito bem notada por ele, que ainda devia conhecer muito de seus artifícios e reações nervosas. Depois de um tempo, ele se levantou para ir embora e ela resolveu lhe lançar um olhar consideravelmente firme, na porta do apartamento enquanto o elevador não chegava, expressando um misto esquisito de sentimentos como se quisesse dizer "viu como eu estou bem sem você?" e "a saudade agora apertou como um sapato de número menor no calcanhar".
Quarta-feira, Maio 09, 2007
Fiz ontem esse vídeo, no show de Paulinho Moska do Projeto Seis e Meia aqui em Natal/RN (Teatro Alberto Maranhão). E vim correndo pra compartilhar um pouquinho com vocês o quão foi emocionante e, digamos que... transcendental!
Essa música é uma versão de La edad del cielo, de Jorge Drexler (aquele da trilha fantástica de Diários de Motocicleta).
Segunda-feira, Maio 07, 2007
"te escrevo em desordem, bem sei. mas é como sou." clarice lispector
Quarta-feira, Maio 02, 2007
Amanheci empoçada da poesia de Hilda. Com um gosto ácido de travar um embate com o pudor. O passo racionalizado quebrou um ar inocente e mágico, mas me devolveu uma certa delicia em me ser. Anoiteço agora encharcada de Clarice, em suas viscerais conclusões.
Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.
Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.
(Hilda Hilst)
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