
Quarta-feira, Abril 26, 2006
Ausência
Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.
Sei bem que ela virá
(Pela força persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais.
Por exemplo, assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra,
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue.
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente
Mas agora não sinto a sua falta.
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)
Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz já tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.
Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua.
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.
Manuel Bandeira
* * *
A luz se apaga. Éras tão bonita. Lembro bem: tu se dedicava as causas mais esquecidas, fizesse chuva ou sol. E eu admirava, mesmo que lá de longe, tanta fé e altruísmo. Sabia que iria ser assim: a partida traz consigo toda a constatação do tempo mal aproveitado... Mas vais para onde a mente humana ainda não consegue retratar. Vais porque és pura demais para esse mundo. Vais e te liberta do corpo cansado e magrinho. E eu sei que nem doeu pra ti. Já não fazia mais sentido esse chão, não é? A lembrança seguirá encantando os momentos mais nostálgicos, ao passo que a vida seguirá com seu imenso e impiedoso caldeirão.
Domingo, Abril 02, 2006
Hoje todos os meus sentimentos estão revirados.
Cada vez mais me distancio de algum sentido que isso daqui possa fazer.
Não sou clara nem para mim mesma, quanto mais o mundo como um todo...
E quase ouço Clarice (sim, ela de novo) me dizer: "Parece que você quer entender que não entende".
vinícius disse por aí
que
"as cores de abril não querem saber de dor"
não chora, me ouviu?
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