
Quarta-feira, Setembro 28, 2005
Da série: rabiscos encontrados em cadernos velhos
Eu o amo tanto que não consigo chegar até ti. Tenho medo de perder-te mais. De perder-me mais e demorar, em demasia, a me achar (e te achar). Sonho com teu rosto até quando não quero e sinto tanto a tua falta. Fostes tão depressa que me arrancou pedaços de minhas carnes. Sangrou e abriu buracos que deformou minha aparência. Ah, se a dor é desagradável por dentro, muita coisa deve refletir na aparência, não? O modo de se vestir, de se pentear. O modo de se ver. Entortou meus gestos e me afastou de mim mesma. Amputou meus sorrisos todos e, por um bom tempo, faltou-me a doçura que a gente sente no peito quando inspira e expira o ar. Falo dessa dor como uma forma de arrancá-la de mim e, assim, não me lembrar mais dela. Falo daquilo que nunca quisestes escutar. E não cabe a mim julgar-te fraco. Não devo ser tão egoísta. Ah, meu amado... Moras aqui na rua do lado e até teu cheiro eu consigo sentir. É só fechar os olhos e sorrir por toda a tua beleza. Sim, no fundo, sei que não posso culpar-te por eu ter me doado tanto, por eu ter te deixado conhecer tanto de mim e proteger-me. Eu sei, teus braços não são meus, mas tranco as portas do nosso jardim e fico com a ilusão (confortante) que as flores mais belas e mais sutis resistirão à fúria do tempo. E eu finalizo lembrando-te do Chico, dizendo: "Depois de te perder, te encontro com certeza/ talvez num tempo da delicadeza/ onde não diremos nada, nada aconteceu/ apenas seguirei como encantado ao lado teu".
* * * * *
Observação: O que eu escrevo ou escrevi há algum tempo nem sempre refletem ao pé da letra algo que eu esteja sentindo. Escrever livremente também é saber fingir sensações, imaginar e, sobretudo, exagerar. Portanto, não tentem relacionar os meus escritos com a minha realidade. Às vezes eu me mostro entre uma linha e outra, mas às vezes eu me escondo também.
Segunda-feira, Setembro 26, 2005
Ando querendo tirar férias de mim mesma. E aprender a escrever de novo. Por que diabos eu não sei mais? Humpf...
Não consigo passar da terceira linha.
Sábado, Setembro 24, 2005
"Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos
Me interessam..." (Cazuza)
* * *
... infelizmente
A ansiedade devido ao "não-saber" parece querer comer meu fígado (eu hein, coisa mais mórbida) ao longo do dia. Tu devias vir, mesmo. Conto-te até que me jogo na cama depois do trabalho e fico imaginando mil possibilidades inconfessáveis
(Controle-se já, dona Isabella).
Quinta-feira, Setembro 15, 2005
roda mundo
roda gigante
roda moinho
roda pião
o tempo rodou num instante
nas voltas do meu coração
(...) no peito a saudade cativa
faz força pro tempo parar
mas eis que chega a roda viva
e carrega a saudade pra lá
*chico buarque*
Apesar de quase não ter escrito por aqui nesses últimos meses, muitas coisas eu tenho tido vontade de registrar -- coisas bem bobas, bem cotidianas mesmo. Na maioria das vezes, eu não estou em frente a um computador e, quando não há papel e caneta por perto, eu acabo sem rabiscar a sensação do momento. Chego em casa tão cansada que acabo deixando pra lá (e é chato esse lance de "deixar pra lá" aquilo que só nos dá prazer).
Mas falando em "deixar pra lá" e usando a expressão agora para as coisas ruins, eu tenho precisado jogar fora um montão de lixo que vem se acumulando por aqui há um tempão. Já comecei uma faxina geral no meu quarto. Já é um belo passo, não? Eu gosto dessas fases. A sensação que me invade é de recomeço e coragem por me permitir deixar pra trás aquilo que vem me incomodando e, assim, esvaziar o ambiente pra que o novo possa entrar... Pensei até em deixar esse blog, mas isso eu acho que ainda não consigo tão cedo.
O curioso é que a minha rotina de uns três meses pra cá (trabalho de manhã e de tarde, faculdade e tempo mínimo pra resolver minhas pequenas responsabilidades do dia-a-dia) mexeu muito comigo e me motivou, por incrível que possa parecer. Como se eu tivesse passado a me deparar e conhecer um outro lado meu que acabava de ser despertado...
trilha do post: chico buarque - olhos nos olhos.mp3
Sexta-feira, Setembro 02, 2005
Tu vens chegando pra brincar no meu quintal
No teu cavalo peito nu cabelo ao vento
E o sol quarando nossas roupas no varal
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais
A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
E eu não duvido já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais
(Anunciação, Alceu Valença)
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