
Terça-feira, Agosto 23, 2005
O Poeta e a Rosa
Vinicius de Moraes
( E com direito a passarinho)
Ao ver uma rosa branca
O poeta disse: Que linda!
Cantarei sua beleza
Como ninguém nunca ainda!
Qual não é sua surpresa
Ao ver, à sua oração
A rosa branca ir ficando
Rubra de indignação.
É que a rosa, além de branca
(Diga-se isso a bem da rosa...)
Era da espécie mais franca
E da seiva mais raivosa.
- Que foi? - balbucia o poeta
E a rosa; - Calhorda que és!
Pára de olhar para cima!
Mira o que tens a teus pés!
E o poeta vê uma criança
Suja, esquálida, andrajosa
Comendo um torrão da terra
Que dera existência à rosa.
- São milhões! - a rosa berra
Milhões a morrer de fome
E tu, na tua vaidade
Querendo usar do meu nome!...
E num acesso de ira
Arranca as pétalas, lança-as
Fora, como a dar comida
A todas essas crianças.
O poeta baixa a cabeça.
- É aqui que a rosa respira...
Geme o vento. Morre a rosa.
E um passarinho que ouvira
Quietinho toda a disputa
Tira do galho uma reta
E ainda faz um cocozinho
Na cabeça do poeta.
Terça-feira, Agosto 16, 2005
"O que está em jogo é o sentido da vida. A vida vale a pena? Para quê? Estas, Maria são questões que todos nos colocamos. Mas as colocamos covardemente, com medo, e as sufocamos debaixo do trabalho, da caderneta de poupança, da novela, da religião. Como você, Maria, todos tememos e todos nos perguntamos se vale a pena viver -- num sussurro.
Mas eu gostaria de ter podido ser seu companheiro na sua dor. Talvez você tenha mergulhado no mar por não ter sido possível mergulhar no amor. A solidão, o silêncio, a palavra sem volta -- e a gente olha e vê as máscaras e as pedras. Mas Maria, você não precisava ter ido."
Trecho da crônica O mar de Maria, de Rubem Alves.
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