
Terça-feira, Abril 19, 2005
Poucas bandas ou cantores me deixam com vontade de me transportar até quatro horas de viagem até outra cidade, para ver seus shows. Los Hermanos provoca tanto isso em mim que eu já fui duas vezes pra Recife (em menos de seis meses) só pra assisti-los tocar. E acreditem, não é fanatismo. Nem sequer procuro me informar acerca da vida pessoal dos integrantes - na verdade, odeio a falta de carisma deles. Só que eu acho incrível a criatividade que elas têm para compor. As músicas são poesias puras e dá gosto de ouvir a qualquer hora. Fico num estado mágico.
...
Voltando pro começo, uma dessas vezes que eu viajei para um show deles foi sexta-feira passada, no Abril Pro Rock. Juntou o meu gosto pela banda com a minha sedução pela Manguetown e bastou pra me deixar pra lá de animada. E eu confesso: jamais me arrependi em algum momento. Assim como por ler Clarice Lispector, eu passei a sentir necessidade de ouvir Los hermanos ao vivo, bem pertinho do palco, de olhos fechados. Deixando a música me embriagar. Pode ser que seja fase, coisas da excitação juvenil, mas é uma sensação benéfica e - acredito que - sadia, porque às vezes a gente quer mais é esgotar todas as energias e se permitir. Degustar, com responsabilidade, a entrega intensa.
Depois de toda a empolgação em escrever, acho que nem preciso dizer que o show foi lindo, né? Ainda mais quando existem pessoas queridas compartilhando o momento com você...
Em suma, posso dizer que ganhei uma injeção de entusiasmo para o resto da semana. E assim eu vou levando, entre tropeços e sorrisos.
Iaiá se eu peco é na vontade,
De ter um amor de verdade.
Pois é, que assim em ti eu me atirei.
E fui te encontrar
Pra ver que eu me enganei
Depois de ter vivido o óbvio utópico, te beijar
E de ter brincado sobre a sinceridade e dizer
Quase tudo quanto fosse natural.
Eu fui praí te ver, te dizer.
Deixa ser como será quando a gente se encontrar.
No pé, o céu de um parque a nos testemunhar.
Deixa ser como será, eu vou sem me preocupar
E crer pra ver o quanto eu posso adivinhar.
De perto eu não quis ver que toda anunciação era vã.
Fui saber, tão longe mesmo você viu antes de mim,
Que eu te olhando via uma outra mulher.
E agora o que sobrou? Um filme no close pro fim.
Num retrato falado
Eu fichado, exposto em diagnóstico.
Especialistas analisam e sentenciam.
Deixa ser como será, tudo posto em seu lugar.
Então tentar prever serviu pra eu me enganar.
Deixa ser como será, eu já posto em meu lugar.
Num continente ao revés, em preto e branco em hotéis,
Numa moldura clara e simples, sou aquilo que se vê.
(Los hermanos - Retrato pra Iaiá)
Quarta-feira, Abril 13, 2005
"Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo..." (Walter Franco)
Saudades de sentar nas madrugadas insones e escrever. Escrever sobre o silêncio. Escrever sobre a sensação que ele provoca em mim. Escrever sobre o presente - o máximo que me é possível, já que é impraticável não buscar cenas de outros tempos.
Eu tenho deixado minha vida fluir. Bem mais do que no meu passado mais recente. Tenho deixado o barulho gostoso da água caindo me acalmar, os olhares se encontrarem, sem que eu queira entender muito bem tudo isso.
Vivo uma fase de desejar mudanças que provoquem em mim sensações inusitadas: mudança radical no visual (coisas do meu sangue adolescente), viagens ricas de experiências novas, contato com pessoas e coisas que me permitam muitas e muitas possibilidades, descoberta de um surpreendente prazer (não muito claro, ainda) no que eu ando estudando...
Espero que bons fluídos continuem a vir, porque estão sendo muito bem-vindos. "Nem tudo são flores", mas eu estou aberta, cada vez mais, para circunstâncias que tornem o meu solo bem fértil, por assim dizer.
Domingo, Abril 03, 2005
Hoje é uma data importante para a minha família materna. Aniversário de morte do meu bisavô, pai do avô da minha mãe. Alguém que eu não tive a oportunidade de conhecer, mas que sua história, seus rabiscos, feitos e fotos, foram sempre repassados de forma preciosa e emocionante. Ele foi um homem de ideais encantadores, de uma humildade inexpressível, que mesmo depois de 50 anos do seu falecimento, suas marcas continuam presentes nos corações de muitos que tiveram a felicidade de conhecê-lo e levar a muitos o seu exemplo de pai, cidadão e humano.
Hoje saiu dois artigos sobre essa data na Tribuna do Norte, selecionei um testemunho lindíssimo sobre um pouco dessa história. Vale a pena ler.
Um santo entre nós
(Cláudio Emerenciano - Professor da UFRN)
Pouco importam os infortúnios, se a felicidade dos justos é fazer o bem. Indistintamente. O sentido da vida se renovava em cada gesto, em cada renúncia, em cada doação. Relações humanas germinadas no amor. Sem nunca esperar ou exigir reciprocidade. Sua vocação era partilhar a própria vida. Dar aos outros, sem vacilações. Assistência material, conforto espiritual, e, profissionalmente, a restauração da saúde de enfermos e doentes. Sobretudo indigentes, ainda hoje esquecidos, vítimas de estruturas sociais descomprometidas com a vida e seu sentido universal. O exercício desse ministério, silenciosa e humildemente distribuído sem fim, até morrer, era impregnado de uma paz luminosa e contagiante. Inspirava-se na profética anunciação de Jesus no Evangelho de São Lucas: "O reino dos céus está dentro de vós".
Ele nasceu em família e casa humildes. Por coincidência, quase nos fundos de sua futura residência, na avenida Rio Branco 624, de onde, médico e santo, enfartado pela segunda vez, foi hospitalizado para entregar-se ao Senhor. Natal dos anos 30, 40 e 50. Avenidas e ruas bucólicas, repletas de arvores frondosas. Casas com seus jardins de margaridas, jasmins, violetas, dálias e outras variedades. Cascudo, em memorável "Acta Diurna", disse que se andava a pé do Tirol para a Ribeira à sombra.
Em 1949, manhã de intensa chuva, Joaquim Barbosa ("Quinquim") trabalhava na Farmácia Maia (em frente ao Palácio Potengy), de propriedade de Laurentino Duodécimo ("Duó") Rosado Maia. Alguém bate fortemente a porta. Era o médico e bom samaritano. Paletó, sem gravata, de chinelos. Trêmulo pelo estado de uma paciente, que precisava de uma medicação caríssima e importada (provavelmente antibiótico). O médico exibe a carteira sem dinheiro algum. Ante a circunstância da urgência diz o seguinte: "Diga a Duó que, na impossibilidade de pagar agora, deixei meu anel de formatura" (a única jóia que possuía). Quando, mais tarde, Duó toma conhecimento, além de devolver o anel, diz o seguinte: "Daquele homem, que é um santo, não se recebe nada. Quando ele puder pagar, pagará". Hoje se sabe que o remédio foi ministrado numa mulher paupérrima, residente nas Rocas. Manoel Henrique, que tinha "carro de praça" na Avenida Rio Branco, fez com ele o percurso.
Outra vez sua esposa o surpreendeu acomodando calças, camisas e pijamas em uma maleta. -Você vai viajar? -Claro que não. Vou levar estas roupas para "fulano" no leprosário, que está quase como Adão. Outro dia chega coberto de sangue. Vinha do Hospital (Sanatório) "Getúlio Vargas" (hoje "Gizelda Trigueiro"). Assistira um paciente até morrer, confortando-o espiritualmente, rezando e com ele se abraçando. Seu consultório era na própria casa. Recebe um paciente. Além de remédios lhe dá todo o dinheiro. À noite, sua esposa, Josefina, também uma santa, pede-lhe dinheiro para a feira. Não tem. Mas a tranqüiliza. Logo cedo, entra um compadre, fazendeiro, Manoelzinho Pereira, trazendo-lhe uma "opulenta" feira do interior. Esse era José Ivo Moreira Cavalcanti, médico, professor, cristão pela fé e por seu testemunho de vida.
José Ivo, meu padrinho e um dos meus santos protetores, faleceu às 23h45 de 03 de abril de 1955. Há 50 anos. Nesta noite, como nunca se viu em Natal, trovejou e relampejou. Os céus acolhiam o santo que testemunhara Jesus entre nós.
* * * *
A quem se interessar, há um outro artigo contando com mais detalhes a história de vida dele: http://www.tribunadonorte.com.br/colunas/jornalwm.html
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