
Terça-feira, Dezembro 28, 2004
Sábado, Dezembro 25, 2004
"Como é que papai Noel não se esquece de ninguém?"
Há algum tempo atrás, eu lembro de me deitar na cama e desejar que o sono não viesse - apesar de estar exausta de tanta energia que consumia abrindo presentes e mais presentes - para poder ouvir a risada do Papai Noel, ainda do seu velho trenó. Isso tudo porque minha mãe dizia que a filha de uma amiga dela sempre ouvia, então não haveria prova maior para deixar de duvidar na existência do bom velhinho. Eu ficava horas tentando imaginar por onde é que ele entrava para deixar meu presente, já que eu morava em apartamento, onde não existia chaminé e a janela era toda gradeada.
Uma música que eu adorava cantar dizia assim: "Botei meu sapatinho, na janela do quintal. Papai Noel deixou meu presente de Natal. Como é que Papai Noel não se esquece de ninguém? Seja rico ou seja pobre o velhinho sempre vem". E então eu tentava imaginar se as criancinhas, que passavam fome na rua, ganhavam o presente que pediam (assim como eu) já que Papai Noel, descrito na canção infantil, não faltava jamais para criança alguma. Eu pensava se ele era tão generoso que não media esforços, nem conta bancária para atender a todos. Caso a minha teoria estivesse certa, o Natal seria mesmo um dos dias mais felizes e mais mágicos do ano, sem contar com aquele cheirinho de comida farta na mesa.
Com o passar dos anos, de tão curiosa, fui descobrindo que era ilusão muito do que eu imaginava, que o Natal de milhares de famílias eram cheios de frio e fome, e só algumas crianças podiam se dar ao luxo de ir dormir com aquele friozinho na barriga para esperar seu presente pedido na cartinha. Definitivamente, Papai Noel não deixava presentes em todas as casas da favela, nem debaixo de viadutos. Eis que sofri com a decepção ao descobrir que o Natal alegre, que eu tentava imaginar em cada rostinho infantil, não passava de um privilégio para alguns. Ainda existia expectativa enquanto restava a esperança devido ao sentido religioso de tal data, mas isso também foi se esvaindo, de uma forma muitíssimo natural.
Fiquei triste por não ter mais motivos em minhas mãos para comemorar, como antes. É claro que é sempre bom ter a família reunida em volta de uma mesa, confraternizando o que quer que seja, presenteando com carinho, tirando fotos, desejando coisas boas... Mas é doloroso saber que a crua realidade afastou muito de mim a magia dos dias da infância.
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