
Quarta-feira, Julho 28, 2004
Ontem choveu muito - em dias assim, eu fico dengosa, altamente sensível e com um frio sem tamanho - e aquele barulhinho de água caindo foi minha única companhia. Embora eu quisesse que todos os amigos mais especiais do mundo estivessem presentes para me fazer rir e me sentir querida, não tinha força nenhuma para discar os números no telefone e dizer isso aos mesmos (faz é tempo que eu não encontro algum com detector de "amigo-em-apuros"). Escolhi um bom filminho, deitei na rede de vovó, peguei um edredom bem gostoso e fui me deliciar com as cenas belíssimas de "Kolya - uma lição de amor" - original da República Checa. Depois chegou a hora de ir pra caminha e eu adormeci com o travesseiro encharcado de lágrimas, numa overdose de Chico Buarque. Mas não foi nada, não. Só saudade de um cenário que vem se tornando cada vez mais distante.
...
Hoje na análise, foi o momento de falar de tudo isso que coloquei aí em cima e de me perguntar porque eu ainda continuo me remoendo com lembranças de um tempo de erros e entregas que só me deixaram mal. Ainda não tenho a resposta, mas me surpreendi ao sair da clínica com uma vontade enorme de fazer algo que me fizesse bem. Por mim, eu comeria um belo pedaço de torta de morango. Não pensei duas vezes, fui atrás disso:
- Moça, tem torta de morango?
- Tem não. Acabou há pouco tempo. Só tem sobremesa.
- Então eu quero docinhos.
- Quantos?
- Um de cada tipo.
E lá fui eu toda contente - com um pacote cheio de docinhos nas mãos - voltar pra casa. Ainda fiquei pensando: é, se a montanha não vai até Maomé, Maomé vai até a montanha. rs...
Terça-feira, Julho 27, 2004
Os dias, por aqui, parecem-me um pouco melancólicos. Talvez esteja me faltando aquela desejada sede-de-viver e um par de asas novinhos em folha. Por enquanto, vou procurando por entre os caminhos tudo aquilo que andou se perdendo: a música, a poesia, o pózinho dourado de encantamento, o riso de criança, as cores...
O ruim é saber que vai demorar séculos para eu conseguir me entregar a algo com tanta intensidade de novo. Quando se trata da mocinha aqui, isso é bem triste.
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E no momento, eu estou ouvindo uma das músicas mais belas de Chico. Por coincidência, ela também me lembra muito os meus dias de algum tempo atrás...
Eu te amo
Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair
Não, acho que estás só fazendo de conta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir
Quinta-feira, Julho 01, 2004
Cazuza - o tempo não pára
Enfim, fui assistir Cazuza - O tempo não pára, ontem. Sou um pouco suspeita para falar, pois já entrei no cinema com olhos de fã e admiradora fervorosa de seu trabalho. O filme retratou bem o jeito que Cazuza tinha de ver a vida, a sua intensa paixão por ela e, além disso, acabou cutucando aquelas pessoas que ainda não enxergam o homossexualismo com naturalidade. Ele tinha um caso de amor com o ar, com o mar, com as pessoas, com a música. Vivia todos os momentos até a última gota, com muito otimismo e autenticidade - só lhe faltava um pouquinho mais de responsabilidade. Fiquei emocionada com o tom poético do filme e as músicas escolhidas para compor a trilha sonora. "O tempo não pára" sendo tocada na telinha e as lágrimas descendo pelo canto do olho, tive que me segurar para não começar a soluçar ali mesmo. Eu só não viajei para a outra dimensão, por completo, porque tinha uma pessoa muito especial do meu lado segurando a minha mãozinha, que, vez ou outra, roubava deliciosamente a minha atenção.
Eu dei tantos sorrisos, que foi quase impossível não chegar em casa sentindo-me bem levinha... E até nessa hora, eu lembrei de Cazuza dizendo:
"Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida."
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