
Quinta-feira, Abril 22, 2004
A saudade veio sem pedir licença. A chuva quis complementar aquele cenário de lembranças e vontades. Poderia tirar fragmentos das músicas que tocavam no momento e, com eles, escrever-te uma carta. Dizer-te-ia que me fazia feliz ter tua leve presença pertinho de mim, contando estrelas no mesmo ritmo. Muita coisa ficou: a lembrança do teu riso frágil que teimava em me revelar segredos, nossas músicas, nossas palavras rabiscadas naquelas noites que nos renovavam -- tão cheias de entrelinhas.
Nossos olhos, tão iguais, procuram o mesmo lugar seguro. Ainda me conforta saber que o desejo de ambos é nos reencontrarmos lá.
"A canção tocou na hora errada
e eu que pensei que sabia tudo,
mas se é você eu não sei nada."
(Ana Carolina)
O futuro é incerto, o presente ainda dói um pouquinho e o nosso passado ainda tem retratos que colorem o meu quarto. Assim eu não sigo tão vazia.
Segunda-feira, Abril 19, 2004
Enfim, vou atualizar o meu blog. Até quinta estava fazendo prova, ou seja, minha rotina se resumia a colégio, estudos, cansaço e muito sono acumulado. Assim que terminou, tratei de dar um belo desconto. O fim-de-semana foi repleto de momentos especiais. Pra começar, teve torta de morango, suco de cajá, música ao vivo e carinho de frente pro mar. Foi uma noite linda. Não teve lua refletida no mar, mas teve ondas com espumas branquinhas brincando num ritmo gostoso e calmo.
No outro dia, revi pessoas que são especiais de forma incomensurável, cada uma por um motivo diferente. Estar com elas é sempre maravilhoso. Cantamos, dançamos, bebemos, rimos, nos abraçamos e festejamos o encanto que havia naquela união. Bem no auge da tamanha alegria, acabo escutando a voz da pessoa que tanto me faz falta. Eu constatei que tudo pode mudar, menos o fato de sermos tão parecidos. E foi bom ouvir sua voz dizer que ainda acredita que vamos recuperar tudo o que se perdeu, embora eu nem tenha mais essa certeza.
Esse blog também é motivo para surpresas. Sem eu imaginar, ele foi parar nas "mãos" de uma pessoa que é praticamente da minha família. Apesar de sempre simpatizar com a mesma, os papos eram, na maioria das vezes, formais. E na primeira oportunidade, ela veio correndo expressar pra mim a satisfação de ter descoberto, depois de anos, como se identifica comigo. São essas pequenas coisas que me deixam com um enorme sorriso estampado no rosto.
Sábado, Abril 10, 2004
"Tua tristeza é tão exata. E hoje o dia é tão bonito."
Silêncio em demasia também dói. Ele traz consigo a solidão -- que apesar de achar bela, sei que causa dor. Às vezes preciso ficar sozinha, outras (poucas) não. Algum dia dessa semana foi assim. Precisei do calor do abraço de alguém e de momentos que me garantissem os risos capazes de lavar a alma. Não sentia angústia. O que me fazia sentir frio era uma tristeza serena, que apenas me mostrava quão frágil e pequena eu me encontrava. Entretanto, já consigo achar um templo dentro de mim. Um lugarzinho onde eu encontro paz e conforto e uma ausência de barulho que me fascina. A tristeza não vai embora com as lágrimas, mas o corpo fica mais relaxado e, às vezes, consigo adormecer.
Domingo, Abril 04, 2004
"Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais..." (Elis Regina, Casa no campo)
Sentir-me bem foi o que busquei durante esses dias. Como faz já algum tempo que deixei de acreditar que as coisas podem cair do céu, dobrei as mangas da camisa e fui à luta. Depois de algumas atitudes, já estava me sentindo viva novamente. Meus olhos tiveram seus brilhos renovados, e minha segurança voltou a me surpreender.
Concretizei um dos meus planos mais importantes. Agora moro na casa dos meus avôs e ganhei um cantinho só meu. Não trouxe muitas coisas na mala, apenas algumas roupas, meus preciosos livros, minhas cartas, fotografia de pessoas queridas e de momentos inesquecíveis. Minha avó anda pintando quadros e, ao chegar em sua casa, me deparo com um, recém pintado, bem colorido e ao mesmo tempo misterioso. Não hesitei em coloca-lo no meu novo quarto, para que aquelas cores vivas possam me alegrar sempre que fitar a bela imagem. O meu cantinho está com o meu cheirinho, com a minha energia, e preenchido com coisas que me fazem bem. Engraçado, sempre que entro lá me sinto confortada como se estivesse sendo abraçada com ternura. Essa paz e esse novo ar trazem consigo um pouco da motivação que tanto desejei. Cabe ao momento falar que está começando uma nova fase e estou otimista quanto a isso. Embora saiba que a saudade ainda me corrói, consigo perceber que venho dando espaço para algumas coisas preencherem o meu presente e deixando que outras sejam livres de novo, para que só voltem se sentirem vontade. Aos poucos, a serenidade vem tranqüilizando o meu coração e preparando-o para encarar certas mudanças e uma possível perda. Devo aceitar que algumas coisas podem ser irreversíveis. O silêncio aqui dentro me abraça e me dá um beijo de boa noite.
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