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Quarta-feira, Março 31, 2004


Hoje o mar faz onda feito criança
No balanço calmo a gente descansa
Nessas horas dorme longe a lembrança
De ser feliz


Queria fugir para uma praia por alguns dias. Levaria alguns livros para não me sentir sozinha, as músicas que me tocam e me fazem bem, algumas frutas e as lembranças de vozes e olhares. De noite, acenderia uma fogueira e tentaria achar o silêncio aqui dentro. Só assim a minha alma conseguiria ser abrigo para o meu corpo e aquecê-lo.

Quando a tarde toma a gente nos braços
Sopra um vento que dissolve o cansaço
É o avesso do esforço que eu faço
Pra ser feliz


Alguns olhos estão cada vez mais distantes do meu cotidiano. Seus respectivos brilhos começam a fazer parte apenas da minha mente, deixando lacunas que dificilmente serão preenchidas. Ainda não fiz amizade com o desapego e meu corpo se sente cansado. Entretanto, tudo aqui dentro sorri quando eu lembro que ainda existem pessoas segurando minha mão e caminhando comigo.

O que vai ficar na fotografia
São os laços invisíveis que havia


O que a mente ama fica eterno. Encanto, carinho, suave presença, risadas, cumplicidade, partilhas, voz num tom baixinho e sem pressa.

As cores, figuras, motivos
O sol passando sobre os amigos
Histórias, bebidas, sorrisos
E afeto em frente ao mar.


As coisas que amamos são muito leves para o vento levar, pois já dizia Mario Quintana: "No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar". Poucas coisas podem ser tão confortantes como saber disto. Muito do que sou hoje devo às coisas que vivi e como as vivi. Os planos para o futuro ainda não têm o poder de me definir.


Quando as sombras vão ficando compridas
Enchendo a casa de silêncio e preguiça
Nessas horas é que Deus deixa pistas
Pra eu ser feliz


A falta de motivação começou a doer. Tenho que criar coragem para ir atrás da mesma. Pequenas mudanças na rotina e dentro de nós têm um poder incomensurável de nos renovar. E toda renovação traz consigo uma nova dança.

E quando o dia não passar de um retrato
Colorindo de saudade o meu quarto
Só aí vou ter certeza de fato
Que eu fui feliz


E eu continuo não tendo tempo a perder. Quero aprender muito, quero conhecer e sentir novos ares, quero continuar descobrindo e despertando a criança que mora aqui dentro. Quero ter o meu caderno cada vez mais ilustrado com cores fortes.

(Trechos em negrito: música "Fotografia", de Leoni)

Por Bellinha em 12:56 AM


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Sábado, Março 27, 2004


"Baby, compra o jornal e vem ver o sol. Ele continua a brilhar, apesar de tanta barbaridade..."

Entrei no ônibus, exausta depois de um dia cansativo e longo. Sentei no banco e olhei para a janela. As pessoas passavam apressadas de um lado para o outro, preocupadas com que viria depois, com o futuro (sempre o futuro ocupando suas mentes). Estariam perdendo o seu precioso tempo, se parassem para olhar para a lua, que inocentemente brilhava. É tão pobre a vida de alguém que não ainda compreendeu que a gente vive apenas no presente, e que a nossa chance de fazer algumas coisas valerem a pena só é dada para nós nesse instante que se passa. Respirei fundo e olhei para as pessoas que estavam sentadas ao meu redor. Num dos primeiros bancos, um bebê no colo da mãe passou a me fitar. Era uma menina e me olhava nos olhos, com um ar sereno e um enlevo inocente de quem ainda nem sabia sobre a existência do futuro. A gente se entendeu. Estávamos ali para sentir o mundo e não compreendê-lo. E assim, compartilhamos o singelo momento intensamente. Aquela troca de olhares, cheia de cumplicidade, foi o bastante para me renovar e encher o meu peito de uma alegria de criança. Não tenho dúvidas de que foi o meu "eu" criança que trocou confidências com a outra criança que, por sua vez, só possuía aquele "eu". Não quis pensar mais. Se continuasse refletindo sobre aquilo, ia me sentir profundamente triste por saber que ao crescer, aquele ser humano vai ser tomado por vários "eus", o "eu" acomodado, o "eu" exigente, o "eu" que não tem tempo para sentir a importância das coisas simples... e o "eu" criança poderá ser, lamentavelmente, abafado pelo mundo das coisas objetivas.

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O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

(Alberto Caeiro)

Por Bellinha em 10:39 AM


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Sexta-feira, Março 26, 2004


Durante a última sessão de análise, eu recebi uns toques que me fizeram enxergar algumas coisas. É incrível como ficamos cegos quando nos deixamos levar pelo emocional. Eu estava me sentindo péssima com o emaranhado de pensamentos na cabeça. Estava tudo uma grande mistura, mas eu precisava perceber que certas coisas eu nunca poderia dar conta, e que alguns dos medos que eu vinha sentindo eram frutos da minha própria e infantil insegurança. Vi que o que me cabia, no momento, era trabalhar a minha ansiedade e tentar não ocupar a minha cabeça com coisas que eu nunca conseguirei resolver. Depois de fazer toda essa arrumação na gaveta, deixando só alguns papéis necessários, respirei e notei um ar mais limpo e sereno aqui dentro. Olhei para algumas plantas que estavam ao meu redor e para o céu (que me presenteava com um lindo crepúsculo), e pude ver cores mais intensas. Dei um gostoso sorriso, como se agradecesse à natureza pelo seu gesto de partilha.

...

Apesar de ter sido um dia corrido, deu para sentir que eu realmente estou mais segura. As coisas estavam tomando uma dimensão ilusória enorme dentro de mim, e de tão pesadas, estavam me carregando, como uma correnteza forte que não te deixa fazer escolhas. Mas, enfim, o quadro deu uma boa invertida: o peso diminuiu e eu começo a aprender a carregar as mesmas. Hoje senti saudade, mas foi só saudade; e as lembranças, foram só lembranças (e não medo).


Por Bellinha em 6:37 AM


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Segunda-feira, Março 22, 2004


Depois de um fim-de-semana cheio de mágoas, as coisas vão se acalmando aos poucos. Foi preciso retomar alguns elementos do passado para saber como estão meus sentimentos diante do que tanto anda ocupando a minha cabeça e o meu coração. Certas sensações estavam adormecidas, e hoje eu acabei encontrando-as e descobrindo que eu não quero que elas se diluam com o tempo. Entretanto, sei que isso não seria possível, pois já dizia Adélia Prado: "O que a memória amou fica eterno". No lugar da dor que me fazia chorar, encontra-se a vontade de lutar por uma das coisas mais importantes para mim. Amanhã eu não sei se a vontade vai ser a mesma. Mas de quê vale me preocupar com isso se a vida acontece no presente? Tudo parece muito estranho. Forte e estranho. Tudo parece um verdadeiro paradoxo, as coisas e as atitudes se contradizendo o tempo todo. Até o curso natural do rio parece estar sendo alterado, querendo voltar atrás após ter caído em forma de cachoeira. Onde está a entrega? Onde está a doce e suave presença que me fazia companhia naquele jardim secreto? A essência de nossas almas ainda está lá, e por isso, sempre que sentirmos vontade poderemos nos ver. Mas dói saber que o carnal -- o lado que que fraqueja diante das circunstâncias da vida -- quer nos tirar do lugar que, juntos e tão serenamente, descobrimos.

...

"Quando você chamar meu nome
eu que também não sei aonde estou
pra mim que tudo era saudade
agora seja lá o que for..." (Ana Carolina)


Por Bellinha em 10:21 PM


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Quinta-feira, Março 18, 2004


Tudo que viceja também pode agonizar e perder seu brilho em poucas semanas...

Ontem foi um dia difícil. Muito difícil. Dia de tomar a decisão de não querer mais continuar naquilo que não estava fazendo bem e de não continuar sempre esperando por atitudes alheias para resolver certas coisas. Eu até que fui paciente, soube ver os três lados e soube respeitar dois. Faltou respeitar o meu lado, e ontem eu resolvi fazê-lo, porque as coisas têm limites e eu não queria que tudo acabasse estragando até as lembranças, o que já estava sendo ameaçado. Quando tudo que era tão bom começa a entrar num processo contínuo de degeneração, o melhor que se tem a fazer é ir embora, e guardar o que ficou dentro do coração. Esses tipos de decisões são as mais dolorosas. A gente tem que pôr um ponto final naquilo que tanto nos era especial e importante. E eu chorei a noite inteira, por estar indo embora daquele lugar que já me fez tão bem e que já foi capaz de suprir todo o vazio que corroía minha alma. Precisava chorar toda a angústia que me deixou inquieta esses dias, a ansiedade, a falta de respeito e cuidado para comigo, as esperanças que tinha, a lembrança de uma noite tão linda e mágica, o cansaço causado pela espera e por não saber o que pensar, como agir diante de tudo. Chorei, mas foi um choro seguro de quem sabia que estava escolhendo o caminho mais viável, depois de muito refletir e dar novas chances para tudo que era, para mim, tão valioso.

... e não podemos evitar que a vida trabalhe com seu relógio invisível, tirando o tempo de tudo que é perecível.



Por Bellinha em 5:26 PM


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Segunda-feira, Março 15, 2004


"Mas antes que eu me esqueça,
Antes que tudo se acabe
Eu presciso, eu presciso dizer a verdade..." (Biquini Cavadão)


***

Essa semana que se passou foi um pouco complicada. Estava me sentindo pesada e o humor oscilando como nunca. Para dar uma quebrada na rotina, marquei de me encontrar com uma amiga que eu não via há quase um ano. Fomos comer torta de morango, trocar algumas confidência e filosofar. Descobri que fico extremamente feliz quando sinto que alguém está despertando para a Filosofia, e que fica com os olhos brilhantes e famintos durante esse tipo de conversa. E eu pude falar de algumas poesias que diziam muito sobre o que tanto falávamos... pude contar sobre a minha busca por mais textos de Rubem Alves, pois senti que, com ele, poderia compartilhar um pouquinho da minha solidão e de todo o encanto que havia nela, e que não precisei ler muitas palavras dele para saber que a gente era feito de um material muito parecido, assim como outras pouquíssimas pessoas.
Ah, aproveitando a deixa, confesso que se eu tivesse com dinheiro ontem no shopping, teria levado mais de três livros dele, mas acabei levando só um: "Concerto para o corpo e alma", recheado de crônicas sobre coisas que eu tanto gosto de conversar e de sentir. E folheando os seus livros, percebi também que não cansa de citar Alberto Caeiro e Mario Quintana no meio das suas reflexões. Não tenho dúvidas da existência de tamanha afinidade. Fico feliz por saber que existem -- ou existiram -- pessoas assim, em quem eu possa me espelhar, tê-las como mestras e como amigas, mesmo sem nunca ter conhecido-as.
Enfim, foi um dia que valeu a pena e que ainda foi fechado com chave de ouro. Tive uma conversa importantíssima que me tirou quilos de angústia aqui de dentro. É sempre bom quando se sabe o que quer, o que não quer, e o que é preciso ser feito. Depois de um bom tempo, pude me sentir leve tal qual uma borboleta no jardim.

...
Selecionei um fragmento que eu gosto muito em uma das crônicas do Mestre Rubem Alves:

Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos.
(clique aqui para ler o texto na íntegra)




Por Bellinha em 9:53 PM


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Domingo, Março 14, 2004


Sobre o que é atraente e o que foi despertado

Depois de passar quase duas horas no telefone com uma das pessoas que mais se parece comigo, acabei abrindo as portas para a razão assumir o comando aqui dentro de mim. E confesso: sentir-se segura é uma das coisas que serão eternamente bem-vindas.
Quase sem querer, eu começo a descobrir a vocação que tenho para a psicanálise, com toda a sua construção de raciocínios, jogo de emoções e a capacidade de enxergar, de fora, uma situação e analisar as atitudes, tentando descobrir os fatores determinantes para que elas ocorram de tal maneira. O engraçado, é que eu nunca estudei sobre isso, pouco sei -- na verdade, só li um capítulo sobre Freud no clássico "O mundo de Sofia". Tudo é fruto da minha própria consciência, da forma de como lido com a razão...
Hoje foi assim, eu de repente me empolguei desenvolvendo um raciocínio sobre uma situação, e a minha prima, que é estudante de psicologia, perguntou como era que eu tinha conseguido chegar nesse determinado ponto que tanta gente se mata na faculdade para alcançar e dominar. Eu apenas sorri, e disse que nem sabia nada sobre psicologia, e que isso tudo saia lá de dentro mesmo. Foi então que ela confessou que já tinha percebido que eu tinha essa tendência sempre que a gente conversava, mas queria que eu percebesse isso sozinha. Ainda finalizou com um "o que é que falta então para você desistir de fazer Jornalismo?". Sinceramente, jornalismo me encanta muito, a comunicação, a busca por informações, o desenvolvimento de uma matéria, as entrevistas... é deveras empolgante e eu sempre achei que sentiria muito prazer em trabalhar nesse meio. Mas a cada dia que passa, eu venho descobrindo que a psicologia é algo que já está dentro de mim e além disso, eu sempre quis entender e estudar os comportamentos humanos.
Preciso pensar com bastante cautela e não ficar muito insegura. Afinal, se resolver marcar Jornalismo na ficha de inscrição do vestibular e depois descobrir que não é isso que eu quero, tenho todo o direito de tentar outros caminhos. Sei que é clichê, mas nunca é tarde pra ir atrás do que se quer.


Por Bellinha em 1:17 PM


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Sábado, Março 13, 2004


Post bem diarinho.

1. Sim. Vocês mais uma vez adivinharam: foi estresse de pré-vestibulanda mesmo. Acabei fazendo uma tempestade do tamanho do mundo (e a outra pessoa também), por uma coisa que, na verdade, nem era para eu me sentir culpada. Depois que a poeira baixou, a razão foi tomando o seu devido posto. E o engraçado é que amigos de verdade não precisam de toda aquela cerimônia para fazer as pazes por um desentendimento, se olham e já sabem que está tudo bem; ou então alguma das partes envolvidas liga para oferecer uma carona -- como aconteceu comigo -- e tudo acaba num belo sorriso cúmplice.

2. O cursinho de Português, para mim, está sendo uma das melhores coisas desse ano . Mesmo me tomando a tarde inteira das sextas-feiras, funciona como terapia. Aulas de qualidade de Literatura, Português e Redação. Poucas coisas me dão tanto prazer.

3. Além de eu me divertir de verdade, o cursinho ainda está facilitando a aproximação com uma pessoa que sempre foi muito especial e que sem a sua presença num dos momentos mais marcantes da minha vida, talvez eu não tivesse superado tão rápido algumas coisas.

4. Como eu acabei ficando o dia inteiro estudando, cheguei em casa e desmaiei na cama e só acordei agora. Resultado: acabei perdendo o VI Encontro de blogueiros de Natal, deixando de rever pessoas maravilhosas e
matar a saudade. Mas a justificativa é aceitável -- já sabia que esse ano ia ser um pouco complicado para mim nesses aspectos.

5. E eu não vejo a hora de me mudar para a casa da minha avó. Essa inflexibilidade e incompreensão estão me fazendo tão mal a ponto de mexer com a minha motivação. Sabia que seria assim, já tinha enxergado isso desde o ano passado.

6. Hoje eu grudei em alguém que só me fez bem, que não me deixou desanimar um minuto sequer. Isso me confortou e me deu segurança para enfrentar uma certa situação. Ah, esses meus amigos queridos...

7. Eu queria dar de presente uma torta inteira de morango, só para ver abrir um sorriso no rosto dela, que é tão especial para mim.

8. Ontem, separando as coisas que iria levar para casa de vovó, revirei a minha caixinha de cartas. Cartas antigas, empoeiradas, com o papel perdendo o seu branco vivo e ficando envelhecido. Cartas que simbolizam momentos, cartas de amor, cartas confidenciais, cartas com pedidos de desculpa, cartas de amigos que moram longe... Uma nostalgia deliciosa me contagiou e me fez viajar por muitas e muitas épocas que, por sinal, foram muito bem aproveitadas.

9. Dói estar ao seu lado e, mesmo assim, não deixar de sentir saudade. Vamos estar distantes até que os nossos olhos percam o medo de se fitarem. O nosso olhar era quem apontava a existência de tamanha cumplicidade, e sem ele, eu nunca saberei dizer o que está acontecendo entre nós.

10. "Ah... mas se um dia eu chegar muito estranho, deixa essa água no corpo lembrar nosso banho. (...) Cuida bem de mim. Então misture tudo dentro de nós. Porque ninguém vai dormir nosso sonho. (...) Quantas vezes eu quis ficar solto, como se fosse uma lua a brincar no teu rosto..."


Por Bellinha em 2:21 AM


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Quinta-feira, Março 11, 2004


Se tem algo que eu vou ser dependente para o resto da vida é dos meus amigos - meus poucos amigos. Não tenho turma, tenho pessoas especiais e queridas espalhadas por aí. Pessoas que estão dentro de mim e que eu sei que também estou dentro delas e que quando a saudade bate, o lugar que cada uma conquistou começa a doer.
Eu nunca soube definir amizade. Apenas sei que é o que acontece quando amamos alguém apesar de seus defeitos, quando existe uma cumplicidade, um bem-querer incomensurável capaz de suportar milhares de quilômetros de distância, quando ficamos pertinho do outro por horas e horas, mesmo quando não há nada para ser dito, apenas para ele sentir que não está sozinho. Sei que amizade também pede cuidado e zelo. E eu acho que eu preciso aprender urgentemente a cuidar das pessoas que amo. Não sei se o motivo dessa minha falha seja puro egocentrismo, distração ou irracionalidade, só sei que eu tenho muito medo de perder os anjos que a vida me deu de presente por conta desse meu desprezível defeito.
Hoje eu estou triste. É uma tristeza que não é bem-vinda. É uma tristeza causada pelo medo de que o cordão que me liga à uma certa pessoa tenha enfraquecido. É uma tristeza por estar diante de um abismo outra vez, do mesmo abismo para ser mais sincera (dá primeira vez eu cai abismo abaixo, não posso cair de novo). Pode até ter sido uma bobagem, mas quando se trata de cuidado, as menores atitudes fazem muita diferença. E às vezes, a gente acaba se distraindo e deixando de pensar se aquilo pode vir a magoar alguém que amamos (por achar que se fosse no nosso caso, não nos magoaríamos) e mesmo depois de sinceros pedidos de desculpa, a amizade acaba sendo colocada em risco. Ainda bem que meus verdadeiros amigos me conhecem profundamente, e que mesmo feridos por causa de uma distração minha, sabem que eu não tive a intenção e que também estou sofrendo na mesma proporção. É nessas horas que a confiança e a cumplicidade fala mais alto.
É, a Srta. Isabella precisa urgentemente ficar mais atenta.

* E além de tudo isso, eu ainda vou ter que conter o meu intenso desejo de ouvir sua voz, que tanto me conforta. *

Então, Barão Vermelho cai do céu como um abraço quente:

Não deixe o sol morrer
Errar é aprender...


Por Bellinha em 1:21 AM


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Terça-feira, Março 09, 2004


Caso de amor

Ler é, sem sombra de dúvidas, uma das minhas paixões. Quando eu entro numa livraria, simplesmente perco a noção do tempo. Fico extasiada com aquele ambiente, onde as pessoas vão em busca de conhecimento, de viagens (lembrando do slogan: Quem lê, viaja), de ampliar horizontes... enfim, vão em busca de acréscimo. A primeira prateleira que olho é a de Literatura Brasileira e minha curiosidade é espantosa, dou uma olhada nos livros de escritores que nunca ouvi falar e leio a suas orelhas e prefácios, me delicio com algumas poesias. Depois vou para a prateleira de Filosofia, onde eu me perco. Lá eu encontro Nietzsche, Sócrates, Goethe, Spinoza, Descartes e vários outros filósofos que tinham seus olhos cheios de brilho porque desejavam descobrir as coisas desse mundo. Antes de ir tomar um chocolate quente no Café e passar pelos "mais vendidos", paro para rir um pouco com os livros da sessão Infantil e penso que se eu fosse mãe, iria morrer de orgulho se meu filho se divertisse com aqueles tesouros. Como eu não trabalho, nem ganho mesada fixa, tenho que me conformar e ficar só na vontade de fazer uma verdadeira "feira". Mas quando resolvo economizar e abrir mão de outras despesas desnecessárias, vou correndo na livraria para me presentear. Quando tiver o meu emprego, acho que só vou presentear as pessoas queridas com livros.
Semana passada, terminei de ler "A casa do poeta trágico", de Carlos Heitor Cony. Devorei o livro, como quem devora uma torta de morango. É um romance que eu recomendo, e que apesar de triste, é daqueles que te deixa chorando quando você chega no último capítulo, porque já vai acabar. Além desse, li também "E aí! Carta aos adolescentes e a seus pais", de Rubem Alves. Um dos seis livros cobrados pela Comperve para o vestibular. O livro é ótimo, mas o autor é tão maravilhoso que eu estou louca para ler mais textos seus. Adoro quando o autor revela um pouquinho de si mesmo em seus livros - mesmo nas entrelinhas, como a maioria - e a gente acaba descobrindo afinidades. Nesse caso, deixa de ser uma simples leitura, para ser um bate-papo, uma troca de confidências, um "te entendo perfeitamente bem" ou "não é que eu nunca tinha pensado nisso?" ou até mesmo um "também sou assim"... Chega um dia em que sentimos como se realmente tivéssemos numa roda de amigos. Por isso que eu digo que a leitura nunca vai ser um hábito solitário se você conseguir entrar em sintonia com o autor e com aquilo que ele escreve.

"Leitura é uma deliciosa forma de sair alienação. Alienar é sair de si. Pois é isso que a leitura me faz: eu saio de mim, viajo por lugares onde nunca fui, sinto o que as pessoas sentiram..." (Rubem Alves)


Por Bellinha em 1:21 AM


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Sábado, Março 06, 2004


"Feche a porta do seu quarto, porque se toca o telefone pode ser alguém com quem você quer falar por horas e horas e horas..." (Legião Urbana, Eu sei)

A noite está fria. O barulho da chuva me faz lembrar a beleza que existe na tristeza. Não me refiro à tristeza que traz consigo o mal humor, e sim à tristeza serena, onde saímos procurando as coisas que têm o poder de nos tocar de uma forma única. Gosto de dias assim. Fico sozinha, no meu quarto, ouvindo músicas que combinam com o meu momento e curtindo a minha própria companhia. Antes eu tinha medo da solidão, da casa vazia, da ausência de telefonemas, de apreciar aquilo que não fazia parte da vida da maioria das pessoas. Com o tempo, fui descobrindo que no baú das coisas que realmente me faziam bem havia poesias, filosofia, sorrisos, olhares, música, lua cheia, mar, cores vivas... e foi natural que eu me sentisse triste ao perceber que esse era um caminho solitário, pois eu olhava para o lado e notava que quase ninguém dava importância a isso. Era uma satisfação maravilhosa (e um alívio) quando eu descobria alguém com quem eu pudesse compartilhar esses meus "cristais". Me sentia infinitamente bem por conseguir enxergar um pouquinho de mim em olhares alheios. Em outras palavras, eu me encontrava em outros olhos.
Talvez o motivo da minha tristeza de hoje seja a falta que eu venho sentindo desses "encontros" que sempre me fazem perceber coisas novas e constatar outras que já faziam parte de mim.


Por Bellinha em 11:41 PM


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Sexta-feira, Março 05, 2004


"Quero tua risada mais gostosa, esse teu jeito de achar que a vida pode ser maravilhosa"

Poucas coisas são tão agradáveis como o céu das sete horas da manhã. Eu acordo como se tivesse nascendo para uma nova jornada, onde o ontem já se foi e o amanhã ainda é algo bem distante. E a minha vida, nesses momentos, parece com uma folha de papel em branco, um papel que no fim do dia vai estar todo ilustrado e antes de dormir eu vou olhá-lo e analisar se eu consegui aproveitar bem ou não. Eu levo tão a sério assim porque ainda prefiro viver um dia de cada vez, e acredito que, fazendo bom uso das minhas vinte e quatro horas, estarei tendo a certeza que minha vida não está se passando em vão.
Quero que o sol me aqueça no caminho para o colégio, quero receber "bom dia" pelo olhar e pelo sorriso, quero cruzar com um beija-flor e apreciar a sua beleza, quero estar aberta para mais um dia de aprendizagem, quero continuar com meus olhos vivos e curiosos, como os de um bebê querendo descobrir o mundo novo que está bem na sua frente. Quero que as horas passem num ritmo gostoso e sem pressa. Quero ser surpreendida com coisas que me façam sorrir, e eu sei que as coisas que mais deixam os meus olhos brilhando são as mais pequeninas, que alguém que vive o dia pensando no amanhã nunca nota.

...

Brincar de Viver (Guilherme Arantes / Jon Lucien)

Quem me chamou
Quem vai querer voltar pro ninho
Redescobrir seu lugar
Pra retornar
E enfrentar o dia-a-dia
Reaprender a sonhar

Você verá que é mesmo assim
Que a história não tem fim
Continua sempre que você responde sim
à sua imaginação
à arte de sorrir
Cada vez que o mundo diz não

Você verá que a emoção começa agora
Agora é brincar de viver
Não esquecer
Ninguém é o centro do universo
Que assim é maior o prazer

Você verá que é mesmo assim...

E eu desejo amar
A todos que eu cruzar
Pelo meu caminho
Como eu sou feliz, eu quero ver feliz
Quem andar comigo,
Vem...


Por Bellinha em 7:24 AM


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Quinta-feira, Março 04, 2004


"Meu amor, disciplina é liberdade
compaixão é fortaleza
ter bondade é ter coragem..."


Cuidado: Post extremamente negativo.

1. Ainda bem que eu não nasci com o defeito ridículo de gostar de ser estúpida com as pessoas. Eu abomino com todas as forças do meu ser esse tipinho de gente, e mais ainda quando querem conseguir o que desejam a base de doses cavalares de grosseria, quando nem razão têm. E quando eu sou o agente passivo em ações do tipo, sinto pena da pessoa e a única coisa peço é que me trate com respeito porque eu não sou nenhum cão vira-lata que qualquer um pode chegar e chutar -- e nem os cães merecem esse tipo de tratamento. Quando tudo termina, quase sempre acabo não conseguindo conter o choro -- vai ser sensível assim lá na casa do *******. No dia em que eu aprender a lidar com agressões verbais, vou sentir um verdadeiro alívio.

2. E cada dia que passa eu tenho mais medo de confiar nas pessoas. Depois de uma rasteira recente que eu levei, ando extremamente cautelosa e insegura. Tenho que tomar cuidado para que isso não me torne uma pessoa dura e solitária.

3. Ainda falando em confiança e tentando ver alguma coisa positiva na tal rasteira: ainda bem que aprendi cedo a lição. Espero que seja a última vez que o meu "coração solidário" passe por cima do bom senso.

4. Hoje vocês estão tendo a oportunidade de conhecer a Bellinha mal-humorada e chateada. Nem tudo são flores, nem eu sou tão otimista como às vezes pareço ser.

5. Mas eu ainda tenho a esperança de que algo de bom aconteça essa noite. Para que, pelo menos, eu tenha do que lembrar e sorrir na hora em que encostar a minha cabeça no travesseiro. Bem que um rodízio de sushi ou uma boa conversa cairia bem no dia de hoje (que tanto preciso me renovar).


Por Bellinha em 7:09 PM


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Quarta-feira, Março 03, 2004


"Quantos labirintos tem meu coração? Pra eu me perder e te encontrar.
Quantas avenidas tem o seu olhar? Pra eu te seguir e me guiar..."


Certas coisas a gente faz de tudo para não lembrar, já outras, fazemos de tudo para que os detalhes das mesmas não escapem da nossa vista, da nossa mente. E hoje, na hora em que me deitei para descansar, tentei reviver um momento especial com precisão. Esforçava-me para ouvir novamente as batidas do coração que, apesar do medo, estava em paz. Pude sentir o cheiro e o calor que me passava segurança, a mão procurando a minha só para constatar o quanto éramos cúmplices, o alívio por saber que, enfim, estava com alguém que entendia o meu mundo e que também habitava nele. Depois de sorrir, coloquei tudo de volta na caixinha e desejei que, quando voltasse a abri-la, as lembranças ainda estivessem bem vivas para que, de novo, possam me trazer conforto.

... Não importa quanto tempo faz, tudo ficará adormecido por tempo indeterminado e ainda assim, me sinto bem...


Por Bellinha em 10:56 PM


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Segunda-feira, Março 01, 2004


"Eu só quero saber em qual rua minha vida vai encostar na tua..."

Fazia tempos que eu não tinha uma noite tão péssima. Pesadelos, corpo dolorido, frio, escuro, falta de proteção... Acordei extremamente irritada, fui para debaixo do chuveiro, meditei um pouco e desejei que aquelas vibrações ruins não fossem absorvidas por ninguém. Fui para o colégio, não vi ninguém (e ninguém me viu), coloquei meu fichário embaixo da carteira, me sentei e abaixei a cabeça. De longe, ouvia o professor mais "figura" que eu tenho, de literatura, falar sobre o Barroco. Pela primeira vez, senti falta das boas gargalhadas que eu dava em sua aula, apenas por observar o que ele tinha de mais cômico.
No fundo, eu sabia que se uma certa pessoa resolvesse me olhar nos olhos, eu sorriria como uma criança ao ganhar um algodão doce. O motivo da minha angústia era, justamente, porque eu não estava sabendo lidar com o fato de o olhar dela estar fugindo do meu -- e cá pra nós, eu não simpatizo muito com a palavra "fugir".
Em um determinado momento, eu deixei de ser tão dura comigo mesma e procurei relaxar. Entrei numa sessão nostálgica acompanhada de Rô e Jú e desenterramos canções do estilo "Cabeça, ombro, joelho e pé, joelho e pé, joelho e pé". A espontaneidade era tanta, que eu quase caí no chão de tanto rir e o momento exalava um cheiro de inocência, de alegria pura e simples, o que foi capaz de fazer meu mau-humor escorrer pelo ralo. O legal é que eu tenho amigos que sabem que, em alguns momentos de baixo astral, o melhor remédio é rir até os olhos se encherem de lágrimas.
Era o estímulo que eu precisava para chegar em casa, devorar as poesias dos meus poetas favoritos e descobrir que eu ainda continuo me identificando deveras com Alberto Caeiro (Heterônimo de Fernando Pessoa) e Mario Quintana.

E eu ainda termino esse post ao som de Nenhum de nós:

Vento solar estrelas do mar
A terra azul da cor do seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo?
Se eu cantar, não chore não, é só poesia
Eu só preciso ter você por mais um dia
Ainda gosto de dançar bom dia, como vai você?
girassol, verde vento solar
Você ainda quer morar comigo?
Vento solar e estrelas do mar
Um girassol da cor de seu cabelo
Se eu morrer, não chore não
É só a lua, é seu vestido cor de mar
É filha nua, ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem, ou será que é tarde demais?

(Um girassol da cor de seu cabelo)


Por Bellinha em 9:07 PM


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